Esses meninos (as) estão vivendo um turbilhão de coisas: os primeiros romances, as primeiras experiências mais afetivas e prazerosas da vida, tanta energia! Querem ser protagonista da sua própria história, ao mesmo tempo, lidar com dificuldades do tipo: finalizar o Ensino Médio, escolhas profissionais, projetos de vida, separações dos pais, desemprego na família, doenças de fundo emocional.
Essa juventude vive tudo isso, sempre em uma linha tênue entre o exercício da autonomia, da capacidade de autorregular, de fazer suas escolhas e, ao mesmo tempo, da dependência, da ajuda de alguns atores sociais, tais como: o pai, a mãe, muitas vezes do próprio professor, da orientação educacional das escolas.
Quando iniciei a minha trajetória de professor, acreditava que bastava dominar bem os conteúdos da minha disciplina para tornar-se um excelente profissional da educação; com o tempo, fui percebendo que só isso, era pouco para enfrentar uma sala aula tão heterogênea e tão marcada pela diversidade de interesses e personalidades distintas nesse ambiente chamado escola.
Nesse sentido, nós, educadores, devemos nos preocupar cada vez mais com o processo de aprendizagem dos nossos discentes, a partir da trindade: domínio conceitual, procedimental e atitudinal.
Devemos trazer na dinâmica das nossas aulas, esse olhar mais humanista, ajudando os nossos alunos a desenvolver a sua autonomia de forma kantiana, desenvolver a sua capacidade de análise crítica da realidade. Transformar os nossos estudantes em jovens capazes de promover no seu processo de aprendizagem a arte da dúvida, como elemento chave para chegar a um determinado conhecimento.
Para isso, cabe o corpo docente repensar o seu papel em sala de aula. Deixar de ser um educador bancário, apenas um transmissor de informações e passar a ser um educador que trabalhe os aspectos cognitivos e sócio emocionais dessa moçada.
Não existe uma receita para essa mudança. O que existe é transpiração: estudar aspectos do campo da pedagogia, da psicologia, da neurociência, é planejar bem as aulas, criando situações desafiadoras, em que os discentes sintam que são protagonistas do seu processo de aprendizagem e é papel do professor ajudá-los a promover a maturidade emocional e intelectual nessa fase da vida.
Sabemos que isso não é fácil, exige do profissional da educação ressignificar, remodelar tudo aquilo que historicamente ele aprendeu na sua formação de professor e na sua própria experiência profissional. Essa mudança é necessária, pois está estampada diariamente, na sala de aula, que aulas de caráter tradicional, não respondem mais o interesse de aprender dessa juventude.
Gostaria de encerrar esse texto, citando parte de poema de um dos meus poetas preferidos: Fernando Pessoa no poema: Navegar é preciso; Viver não é preciso.
Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
"Navegar é preciso; viver não é preciso".
Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha.
De ser o meu corpo e a (minha alma) e a lenha desse fogo.
A minha interpretação dessa parte do poema me inspira como educador: viver não é preciso no sentido de que a vida envolve não somente o lado racional, cartesiano; a vida é também, o emocional, afetividade. Lidamos o tempo todo com as angústias, frustrações e desejos, portanto, viver não uma atividade precisa, equilibrada, reta.
Que possamos passar na vida dos nossos alunos como pessoas sensíveis e capazes de fazer a diferença na vida desses meninos (as), entender de forma poética que o mais importante no processo educacional são as pessoas. Além disso, sempre ter essas duas perguntas como principio norteador na ação educacional: que sujeitos estamos formando? Para qual sociedade?


